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Música de fundo



terça-feira, 20 de maio de 2014

Brasil – Portugal & A Máfia das Cebolas (3)






A Saga das Cebolas


Continuação

O casal Corleone decidiu acabar as férias, na Sicilia, um tanto ou quanto inesperadamente. Os seus contactos informaram-no que estava a correr em, João Dourado, região próximo de Irecê, a feira das cebolas. Feira esta, muito importante, nos contactos a estabelecer com os produtores e nos negócios que se conseguiam estabelecer.
 Era evidente que, a sua presença, naquele evento, era absolutamente imprescindível.
 Há muito que o negócio da cebola andava em curva descendente no mercado clandestino.  O governo de Lisboa fomentava-o, agora, oficialmente, nos emirados árabes,especialmente no Dubai, por inspiração do ministro Paulo Janelas que via uma grande possibilidade para aumentar as exportações portuguesas na área da cebola e acabar assim com o mercado paralelo. Aquele pequeno emirado cheinho de dinheiro até dizer chega, tinha,contudo um grande déficite na cultura daquela famosa erbácea . Paulo Janelas, em conjunto com os seus pares, repastelados e afundados até ao pescoço nos exóticos maples, existentes nos sumptuosos salões, naquele paradisíaco hotel, construído numa ilha artificial mar adentro, sonhavam em desenvolver, através da cultura da cebola, naquele emirado, toda uma estrutura financeira assente em moeda própria que, em principío seria o “petrocebola”.
Paulo Janelas, exultava com esta perspectiva, pois já se estava a ver, nas parangonas dos grandes jornais ornamentados de fotos de brindes com coca-cola (os àrabes são abstémios) em que ele mostrava aquele seu riso especial, ensaiado muitas vezes defronte do espelho,  para o pessoal lá da terra. Adorava estar alí, envolvido, com aqueles figurões, todos embrulhados em alvares túnicas que lhe dava a sensação de estar a viver uma história das mil e uma noites.
Ora isto seria a catástrofe para o Dom Corleone e o seu negócio.  Por isso urgia tomar decisões.
Tomou o avião e voou, com a Dona Ronalda, direitinho a Salvador cidade que ele gostava muito por ser parecida a algumas cidades de Italia, especialmente as Igrejas e a arquitetura de traça marcadamente europeia, ainda na sua pureza original genuinamente portuguesa,   Aí, no aeroporto, esperavam os lugares-tenentes, da sua mafiosa organização. Com uma rapidez incrivel arrumaram os inumerosos malões que os acompanhavam, nos porões dos três carrões luzidios de côr preta, de alta cilindrada.  Nada, alí, dificultava a vida ao casal Corleone - eram bem conhecidos naquela região.Todo o pessoal era sempre bem gratificado e Dom Corleone era muito prestativo nesses procedimentos, enraizados na cultura da sua terra natal em que a Igreja tinha uma grande influencia nesse seu comportamento de grande solidariedade com os muito pobres, também,  nas  avultadas esmolas que sempre colocava na bandeja estendida pelo sacristão, a favor das obras de caridade e do sindicato dos pobres locais. Era uma espécie de redenção dos pecados - o branqueamento da alma! Este peditório revertia, também, para a Igreja e , ainda ,para a compra de vinho especial, importado da Sicilia com que o padre celebrava a missa quando erguia o seu cálice, tomando o corpo de Cristo, saboreando aquele nectar ao mesmo tempo que, em pensamento,  agradecia, silencioso, a Dom Corleone por lhe proporcionar tal modormia. Isto repetia-se sempre no fim das missas domingueiras que ,ele, e a sua amada esposa,  devotamente, nunca dispensavam.

 Seguiram, depois, em comitiva de luxuosos carros, três ao todo, rumo a Irecê.
Já na sua casa, enterrada em altos muros e portões de ferro à prova de qualquer visita incómoda, e dos disturbios com tiroteio, muito frequentes por aquelas bandas.
Dona Ronalda reuniu a criadagem, para tomar o controlo das lideranças domésticas a executar dentro das suas prioridades.
Dom Corleone,por sua vez, com o telemóvel colado no ouvido desde que saiu da sua amada Sicilia, acabara de receber um convite do Perfeito, dando-lhe a notícia que ia ser homenageado por aquele município,  com a insigínia da Ordem de  Grande Mérito, pela sua  dedicação ao desenvolvimento, na área  da cultura da cebola, contribuindo grandemente para inúmeros postos de trabalho naquela localidade situada no cu do mundo e perdida na imensidão daquele oceano de terra, nas lonjuras perdidas, de um país promissor que era um autentico e imenso continente.
Dom Corleone exultou com esta notícia, logo, gritando bem alto pelo nome da sua amada esposa para lhe dar a noticia, ao mesmo tempo que correu a ligar  um gira discos muito antigo,em cima de um móvel bem envernizado, por debaixo de uma rebuscada moldura a dar guarida à fotografia a um austero rosto coberto de farfalhuda barba. Legado do seu querido pai, e que se chamava grafnola, sugerindo aquele velho anuncio do cão escutando com ar interrogativo aquela grande corneta, com a legenda “is master voice!”
Em extase, ouvia um trecho de ópera  que muito gostava -“Nessun Dorma”,  na voz inigualável do grande Pavaroti. Ficava assim largo tempo de olhos semi-serrados com um sentimento de grande exaltação como se estivesse pairando por cima do mundo, a contemplar enormes e ilimitados campos de cebola.
Ele adorava aquele país que lhe dera a oportunidade de singrar na vida. Quando muito jovem viajou nos porões de um velho barco a vapor, vindo do velho continente, da sua amada Sicilia onde a pobreza campeava, gerida por clans familiares, tradicionais que, dominavam a riqueza da ilha. Foi um percurso de vida muito dificil, na base de muito trabalho, sol a sol, nos campos de plantação da cebola que só a sua forte compleição fisica e a sua juventude  permitiu a sua sobrevivencia num meio tão hostil. Só os muitos fortes conseguiriam tal façanha, na base de trabalho duro, sem qualquer lei , onde não havia qualquer chance para aos mais fracos - esses ficariam pelo caminho! O seu teto eram as estrelas - o seu futuro eram os seus fortes braços e o grande desejo de, um dia, comprar um pedaço de terra para ele próprio a cultivar. Ele sabia que, o futuro naquele mundo, se construia com trabalho. com trabalho duro para valer! Era terra demais para tão poucos braços - na sua bagagem um sonho -  a forte determinação de participar, com tantos outros da sua estirpe, na homérica epopeia, em edificar, um país, com as únicas ferramentas que possuiam - os seus braços e a vontade indómita de vencer!  

Continua

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