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No Nevoeiro das Docas de Alcântara



Sinceramente, ela não entendia o significado daquele silêncio súbito. Por mais voltas que desse à cabeça, não conseguia compreender. Não depois da última noite, em que os seus corpos se uniram num misto de paixão, desejo e ardor.
No entanto, não era apenas sexo. Não, havia ali algo mais. Uma coisa mais profunda, era amor também e ela sabia-o. Sabia-o pelos beijos, pelo olhar quente que lhe era retribuído com a mesma intensidade. Mais do que isso, ela sentia-o.
Que noite louca, o inesperado acontecera. As saudades tinham derrubado barreiras, ultrapassado obstáculos e o amor vencera.
Bocas que se beijavam, corpos que se envolviam num tango apaixonado, ardente e intenso. Frêmito do seu corpo no dela, a urgência de consumir a paixão e assim uniram-se em apenas um ser, matando os Egos.
Num enlace de braços e pernas adormeceram, com um sorriso de alegria e felicidade. Sonho realizado.
Mas ao raiar da aurora, as sombras desvanecem-se e a noite dá lugar ao dia. Acorda com o brilho do sol nos seus olhos e a brisa fresca da manhã, provocando um arrepio no seu corpo. Abre os olhos meio incomodada, encontrando-se sozinha. Outra vez...
Uma sms chega ao seu telemóvel dizendo: "Nas Docas de Alcântara, às 18h53. Amo-te. Para sempre." Ela sorri, feliz.
Nas Docas de Alcântara, ela chega à hora marcada. Como aquelas 8h custaram a passar! A ansiedade não a deixara sossegada nem por um minuto, o dia no trabalho não lhe tinha rendido nada. Estava eufórica, dispersa e com um brilho diferente no olhar. Assim, notaram Artur e Gabriela.
- Estás diferente! - Disse Artur, surpreso.
- É verdade, mais bem-humorada! - Notou Gabriela.
- Humm, há mouro na costa! - Tentou adivinhar Artur, mas ela apenas limitou-se a sorrir e não satisfez a curiosidade dos colegas.
Nas docas passeava, observando a paisagem. O Cristo Rei, ao fundo na outra margem como que abençoando o seu amor. Estava frio, o sol de inverno desaparecera no horizonte. Entrou no restaurante e procurou a mesa onde jantavam, sempre que se encontravam. Este lugar era especial.
Pediu um chá quentinho e esperou, atenta ao telemóvel que depositou sobre a mesa, não fosse este tocar e ela não ouvir. Bebericou o chá devagar, toda esperançada. Olhou as horas e passavam 30 minutos, após a hora marcada. "Atrasou-se no trânsito.", pensou já menos animada e meio amedrontada com a possibilidade de ter levado uma tampa. Para afastar os maus pensamentos, ligou o Facebook no smartphone para se inteirar das publicações dos amigos e divertir-se. Ao menos, estaria distraída e não daria lugar ao pessimismo. Porém, nas publicações recentes havia uma foto que lhe chamou a atenção imediatamente. Um anel de noivado com alguns comentários de felicitações de amigos e o "SIM", escrito em letras maiúsculas, da pessoa amada, por quem ela esperava havia agora uma hora.
Uma lágrima caiu, rolando pelo seu rosto abaixo. Eis o motivo do atraso e o porquê do silêncio. Limpou as lágrimas do rosto, ligou para a pessoa amada e a chamada foi diretamente para a caixa postal. Telefone desligado. Desligou. Estavam juntos. Pagou a conta e desiludida, de coração dilacerado saiu pela imensidão da noite em direcção ao Tejo desaparecendo no nevoeiro.


FIM













Cris Henriques,
Barreiro, Portugal
Autora do blog
O que o meu coração diz
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sorridente, calada e persistente.

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