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Música de fundo



sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Viver é não Saber que se Vive



 Ponho-me, às vezes, a olhar para o espelho e a examinar-me  feição por feição: os olhos, a boca, o modelado da fronte, a curva das pálpebras, a linha da face...
 E esta amálgama grosseira e feia, grotesca e miserável, saberia fazer versos? 
Ah, não! 
Existe outra coisa... mas o quê? 
Afinal, para que pensar? 
Viver é não saber que se vive. 
Procurar o sentido da vida, sem mesmo saber se algum sentido tem, é tarefa de poetas e de neurasténicos. Só uma visão de conjunto pode aproximar-se da verdade. 
Examinar em detalhe é criar novos detalhes. Por debaixo da cor está o desenho firme e só se encontra o que se não procura. 
Porque me não esqueço eu de viver... para viver? 


Florbela Espanca, in "Diário do Último Ano"