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O ILUSIONISTA - The Illusionist -Иллюзионист

     


No fim da tarde, Natacha, quando lhe era permitido largar as suas tarefas, que desempenhava num pequeno bar restaurante ,dava sempre um pequeno passeio, botando o olho nas montras das lojas circundantes, porém a que mais gostava e lhe despertava mais a atenção eram os cartazes expostos por uma agência de viagens. Aí ficava a ler todos os cartazes que anunciavam maravilhosas viagens pelos locais mais exóticos e paradisíacos da terra.  Rondava os vinte e tal anos, loura, de uns olhos azuis, de uma beleza extraordinária. Emigrante do leste da Europa, conseguiu um dia, com outra sua amiga,romper com o imobilismo e pacatez da sua terra, dando asas ao sonho que acalentava há muito – ir ao encontro de outras paragens, conhecer o mundo.  Em boleias e aventuras mil, conseguiu chegar  até ao sul de Espanha, numa pequena localidade balnear a despontar para o turismo onde, nessas praias quentes do Mediterrâneo ia granjeando o seu sustento em empregos de carácter provisório, nos bares e pequenos restaurantes, que iam por ali proliferando , principalmente, na era estival onde havia emprego disponível.
Sempre sonhou dar sustento à sua ânsia do desconhecido, da aventura e de conhecer outras paragens, outros costumes outras gentes. Em encontros fortuitos com diversos parceiros, dava, aos seus apelos sexuais, a satisfação descomprometida, numa qualquer noite de esturdia .  Não se fixava muito tempo no mesmo lugar .  Certo dia, um Circo e toda a comitiva assentou praça bem próximo do bar onde ela trabalhava na ocasião. Como é característico das gentes do leste, sempre a fascinava tais espetáculos – exultava com a magia das luzes, focando os fatos brilhantes dos trapezistas voando num sincronismo arrepiante em exibição dos seus corpos atléticos . Porém, naquela sua noite de folga, o que mais a impressionou, no espetaculo que escolhera para aquele dia, foi o ilusionista – cabeça de cartaz– o grande mago italiano “Luigi”: o maior na magia . Vestido de maneira impecável num clássico paletó “asa de grilo” onde, na banda, assentava uma flor e no imaculado peitilho sobressaia um laço branco, davam realce ao seu porte elegante. No seu cabelo brilhante, assentava uma cartola, nas suas mãos as luvas completavam o traje com um bordão com punho metálico, talvez prata..
Natacha entrava em êxtase, com aquele ritmo sincopado em que ele fazia aparecer e desaparecer, lenços de cores matizadas, pombas, cartas, num movimento impressionante e sem falhas. vbb A sua esquia e elegante figura, emprestava uma dignidade muito especial aos números que exibia, sempre exuberantemente aplaudidos pelo público. Natacha de pé, era uma das fãs que vibrava  intensamente com as magníficas prestações ilusionistas . A figura majestosa do artista perturbara-a profundamente, ao ponto de ir para o quarto onde era partilhado com mais duas amigas, a pensar naquela visão mágica quase esfingica de Luigi – o mágico!
Foi com grande emoção que, no dia seguinte, deparou com Luigi –  ele alí estava, bem perto dela, sentado numa mesa, sozinho, para almoçar.  Reparou que, mesmo sem a dignidade que o traje de trabalho e a idade denunciada no seu rosto ~talvez uns cinquenta anos, lhe emprestara, continuava a ser um homem bonito e de extrema elegancia. Natacha não perdeu tempo. Correu para a mesa onde tal personalidade se sentara estendendo-lhe, precipitadamente  a  carta do menu. Luigi reparou no nervosismo de Natacha. Olhou para ela com mais atenção, e constatou que,na sua frente, estava uma jovem extraordinariamente bonita. Sorriu-lhe, aceitando a carta da sua mão um pouco trémula  Natacha  num bom inglês, interpelou-o de imediato: - o senhor é o ilusionista  Luigi? – Sim sou eu mesmo, – em que lhe posso ser útil, respondeu-lhe admirado. –  Desejaria um autógrafo seu, - sabe, é que sou sua admiradora.  – gostei muito do seu número de ontem, fiquei fascinada  Admirei sempre  magia – na minha terra, não perdia um espetaculo de circo! Luigi de imediato  e numa pequena folha de papel colorida onde era anunciado o espetaculo que, entretanto,lhe fora cedida por ela. Ai rabiscou o seu autografo por cima da sua fotografia, com uma dedicatória a preceito. Natacha, entretanto, foi rapidamente surpreendida pelo olhar atento e reprovativo do patrão que lhe fizera um sinal para ela se afastar – Luigi, com ela a retirar-se, ainda lhe disse:  tenho muito prazer em lhe oferecer bilhetes para si e quem mais quizer levar a ver o espetáculo, sempre que desejar.
As idas ao circo foram –se sucedendo. Nos dias de folga lá estava ela, nas primeiras filas a aplaudir entusiasticamente Luigi – o seu grande heroi, aquele que a fazia sonhar, numa envolvencia  artística que a fascinava, sobretudo por aquela figura esquia, qual Deus misterioso que, em sortilégios maravilhosos, exibia os seus poderes sobrenaturais.
Nessa noite e dando seguimento ao combinado, numa das idas de Luigi ao restaurante, Natacha não foi para o pequeno quarto onde era costume dormir. Esperou por ele – o mágico – até que acabasse o espetaculo. Seguiram depois, naquela noite quente , pelo passeio à beira de um mar sem ondas em que o luar, nele reflectido, emprestava-lhe uma beleza de  serenos movimentos de cor prateada. Conseguiram , ainda, entrar num bar que estava a funcionar, bebendo e conversando animadamente até ele fechar.
Sem saber como, Natacha, estava a subir os degraus que davam acesso à “roulote” onde Luigi habitava. Naquela pequena habitação, ela sentiu toda uma envolvencia de bom gosto. Mesmo considerando o pequeno espaço, essa particularidade era o registo que ficava do seu utilizador. Embora a sua juventude marcada pelo sentido prático da vida, Natacha, era sensivel à beleza – ela era orfã, mas fora adoptada por pais ligados ao mundo das artes – a mãe era professora de canto e o pai era escritor -  crescendo, desde muito nova, num ambiente fora do comum em que, a arte, era o oxigénio respirado nas tertulias daquela família.
Luigi era efectivamente um verdadeiro artista – utilizava a sua  arte, com exuberância, também, para projectar um ambiente de magia – ele sabia quanto impressionava Natacha. Nessa noite, em sessão privada, vestiu o seu roupão de veludo, com um monograma bordado com as iniciais do seu nome. Em redor do pescoço, um lenço branco compunha a sua figura cuidada, dando-lhe o toque duma figura da boémia dos anos vinte   Natacha, deitada num maple que servia, também. de cama, aconchegada nas  fofas almofadas de conforto, assistia extasiada às diversas sortes de magia que, Luigi, caprichava exibir,  em ritmados e exuberantes  gestos, para interagir com um público imaginário. Nesse momento só ele existia, naquele pequeno espaço – era Luigi, o grande mago!
A noite terminou com os dois bem juntos, na apertada cama do improvisado apartamento, numa refrega de sexo em que, Natacha foi, então, ela, a grande artista convidada, - a maior na magia dos sentidos,  num desempenho e performance exemplar, mostrando a sua capacidade nessa matéria, apoiada na força que a sua juventude emprestava.
Começara a amanhecer, quando, ela, libertando-se dos braços de Luigi, pegou nas suas escassas roupas e pé ante pé deixou a caravana, seguindo célere pelas ruas desertas em que, alguns convivas, dispersos, deambulavam embriagados, alguns de braço dado,para melhor se aguentarem  de pé e não estatelarem-se no chão!.  Chegou ao apartamento, cáindo na cama exausta e, rapidamente, adormeceu.
Tal relacionamento ia-se mantendo. Sempre que o espetaculo terminava, depois de largar o serviço, lá ia ela em pé ligeiro para junto do seu idolo da magia, onde, depois, curtiam, trocando exuberantemente, após sessões privadas de magia, os inegáveis prazeres de um bom sexo, assegurado pelas prestações de Natacha, nesse domínio especifico ,uma verdadeira “expert”
Para bem dizer, esse desempenho era muito conseguido, em grande parte e em abono da verdade, pelo efeito muito especial  que, os truques de magia exibidos pelo grande mestre Luigi, despertavam nos sentidos de Natacha, atraindo-a para aquele homem que a perturbava, no seu intimo, em que a ilusão, se misturava, dando braços ao seu incontrolável e insaciável desejo.
Luigi, homem bem experiente das longas “tournés” da vida e da arte da sedução, como bom italiano que era, revestia-se de todos os cuidados perante aquela jovem  amante. Com o instinto peculiar de conquista bem demarcado no seu “ADN” ela representava, mais uma, a contabilizar na lista do seu bem recheado cardápio amoroso.  Sabia quanto a impressionava, tentando recriar um ambiente refinado em que ele era o principal personagem, catalisador de ilusões, no imaginário daquela jovem rapariga que, acima de tudo, tinha uma alma sonhadora. Por outro lado ela sentia-se atraída - quase que obcecada -  por tudo o que, aquele homem, despertava nela. Não sabia identificar esse sentimento, nem tão pouco estava muito interessada em faze-lo. Não tinha apetência para divagações filosóficas da vida, preferindo antes, simplesmente, viver – mas, uma coisa era certa – nutria por ele  um fascínio e uma grande curiosidade Começara a estar enamorada.
Luigi estava, por seu lado, a ficar preocupado com o que lhe estava a acontecer. A sua soberba arrogante de macho latino e de sedutor credenciado, estava a ser destruída por aquela bonita e despreocupada jovem. Com efeito, já se interrogava sobre o que lhe estava a acontecer – Ela estava a bulir com ele mais do que era normal, minando a sua segurança e o habitual controlo sentimental,   ao ponto de lhe prometer que lhe demonstraria alguns truques da sua arte de magia, naquelas sessões noturnas de arte e prazer, na intimidade daquele pequeno espaço da “roulote”
Certa noite, ao regressarem  do Bar, em que era frequente conversarem, antes de se dirigirem para a caravana, numa envolvencia intimista e repleta de cumplicidades nos seus olhares, Luigi, pacientemente, foi demonstrando como eram realizados alguns truques das magias que mais a fascinavam. Com os olhos arregalados nos desenvolvimentos das sequências dos truques que estavam a ser explicados, Natacha sentia uma perplexidade que a confundia estranhamente – como  se despertasse de um sonho, ela ia dando conta do que dentro de si estava a ruir como um baralho de cartas. Curiosamente, a figura daquele homem, ali, à sua frente, reduzia-se agora a uma insignificante personagem  - como era possível ela estar alí, naquele lugar com um homem muito mais velho? reparava nas rugas do rosto, no fato pendurado já um pouco coçado, naquele espaço reduzido em que alguns cartazes de espectáculos  de datas muito antigas colados por detrás de um pequeno roupeiro evidenciavam as fotos de Luigi: então veio-lhe uma sensação tremendamente desagradável de rejeição pelo homem que, na sua frente, sem dar conta do que passava pela cabeça dela, insistia na divulgação dos truques que tanto a tinham entusiasmado.
Natacha, resistiu até ao fim das demonstrações que Luigi alegremente lhe ia apresentando – de repente levantou-se e com um ar lastimoso pediu-lhe desculpa, pois tinha de retirar-se de imediato pois acabara de sentir que estava sofrendo de uma hemorragia menstrual.
Luigi prontificou-se acompanha-la ao seu apartamento, ao que ela recusou enfaticamente, despedindo-se com um beijo.
Já, na rua, Natacha, correu solta como um animal livre, sentindo a briza do mar a acariciar-lhe o rosto.
No dia seguinte, pela manhã cedo, de muchila nas costas, apanhou uma boleia de alguns jovens que conhecera nesse dia, no restaurante.  Seguiam num velho Ford, direitos ao Algarve. Uma manifestação de liberdade e de alegria era a nota dominante daqueles jovens. Natacha voltara à estrada – estava feliz.

Hélder Fernando Docarmo Gonçalves

Outubro de 2012

Originalmente publicado no WAF 

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