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Susete



Por volta das 8,30 como sempre acontecia Susete estava à porta do Banco para ser das primeiras pessoas a entrarem. Morava ali perto, numa residência, em Oeiras. Depois dos seus assuntos tratados ficava sentada aguardando o seu sócio para depois seguirem num BMW para Lisboa onde,no Lumiar,se situava uma pequena empresa de venda de caravanas de turismo.
Mulher de 33 anos,alta,bastante bonita,cor da pele branca e bastante loura com o cabelo bem esticado preso atrás em rabo de cavalo. Os seus olhos bastante azuis davam-lhe um perfeito toque de mulher nórdica. Era oriunda do Minho,daí, talvez, a sua diferença tendo em conta determinadas variações genéticas em consequência dos diversos povos que cruzaram aquelas paragens vindos do norte da península. Vestia com gosto dentro da simplicidade que a sua actividade exigia.Normalmente vestia casaco e calça bem talhada que lhe caia solta e impecavelmente direita sobre uns sapatos de tiras e saltos altos bastantes finos. A sua cor predilecta era o branco. O seu sócio,um homem a rondar os sessenta e tal anos de grande elegância no trajar,meio calvo e com o cabelo bem colado e brilhante junto as orelhas,davam-lhe um ar distinto! A sua conversa era fluente e tinha um tique certamente adquirido em frequentes contactos com pessoas de classe,normalmente frequentadoras dos salões e clubes da alta burguesia. Usava gravatas bastante coloridas mas de bom gosto.Quando se dirigia ao gerente do Banco mostrava a sobranceria que a sua confortável conta bancária lhe permitia. Ele nunca pedia:dava ordens!
Susete dirigia a firma estando normalmente no Stand onde promovia as vendas,elaborando os respectivos e posteriores contratos,cujas promissórias(letras) eram entregues no banco para desconto e consequente crédito na conta da firma. A sua ligação ao serviços do banco era bastante assídua e sentia particular satisfação em ser atendida pela gerência que lhe proporcionava alguma conversa fora daquela exigida pela rotina de trabalho.
Por vezes e quando tinha algum problema mais complexo telefonava ao gerente do banco convidando-o a almoçar num pequeno restaurante em Carcavelos,bem junto ao mar. Não poderei esconder quanto ficava lisonjeado com tal companhia. Chegava sempre na hora marcada saindo do seu MG com elegância desportiva! Sentados à mesa dava-me o privilégio de escolher o vinho consoante o prato escolhido e começávamos a conversar enquanto esperávamos a comida. Gostava de valorizar o seu trabalho e contava algumas passagens vividas com os seus clientes. Tinha um tique engraçado quando dava enfase a determinada situação: colocava as duas mãos nos bordos da mesa inclinando-se um pouco para um dos lados e disparava graciosamente referindo-se a um cliente chato: “Eu já estava podre”
Era casada com um homem da sua idade,alto de porte atlético que raramente aparecia em sua companhia.

O sócio, de seu nome Ricardo, exercia a advogacia com escritório em Lisboa. Também residente em Oeiras,era casado e tinha dois filhos. Possuidor de boa fortuna,mantinha uma conta no banco que caucionava, a título individual, a responsabilidade da pequena empresa. Tinha boa reputação, e era notório ser amante de Susete.

Certo dia,quando apreciava uma operação da empresa ,reparei que o nível das responsabilidades estava atingindo um máximo pouco conveniente. Por precaução solicitei o último balanço bem como balancete e outros dados de gestão.
Alguns dias passados recebi um telefonema do Dr.Ricardo:Convida-me para almoçar afim de me entregar os elementos solicitados e poder assim esclarecer-me algumas dúvidas que eu entretanto colocasse. E assim foi:veio buscar-me á hora certa e lá seguimos no seu BMW de gama alta, impecavelmente limpo, para o restaurante do Clube dos Caçadores no Monsanto!
Pelo trato dos empregados reparei que era cliente habitual. Depois da escolha de um prato de caça e de um bom vinho adequado, iniciamos o almoço naquele lugar bastante selectivo e de grande qualidade que convidava à descontracção: daqueles espaços altamente personalizados que nos envolve num ambiente de bom gosto. Começou,contra todas as minhas expectativas, uma conversa fora do contexto que estava agendado: O porquê da existência de tal empresa de venda de caravanas!
Foi então que fiquei a saber do seu grande amor que nutria pela Susete ao ponto de lhe proporcionar a existência daquela pequena empresa. Estava irremediavelmente apaixonado por aquela mulher que o fascinava de tal maneira que estava disposto a fazer qualquer loucura para a ter sempre com ele. Naquele momento senti-me importante perante aquele homem que me fez seu confidente. Estava ao mesmo tempo embaraçado perante tal comportamento tão diferente do habitual,deixando-me confuso e desconfortável. Ao mesmo tempo senti certa insegurança na confiança que era naturalmente devida e exigida naquilo que estava em causa: O seu negócio e as relações com o banco. Apercebi-me que sustentava uma firma que ,no fim, representava para ele um álibi! O seu interesse centrava-se unicamente num jogo de amor cujo objectivo era tornar-se imprescindível perante a sua amante! Perante tal situação,era óbvio que jamais poderia,de forma alguma,estar tranquilo face ao correr do negócio em que o banco era inevitavelmente, um parceiro interveniente e interessado em que tudo corresse bem. Senti por isso um sinal de perigo iminente!

Dias passados, após esse almoço, ao analisar os elementos contabilísticos da firma encontrei registos que me alertaram para determinadas situações estranhas e incompatíveis com os registos existentes no banco. Não tinha, já, dúvidas: Havia algo que não batia certo. Entretanto,Susete continuava na sua rotina habitual. Certo dia apareceu no banco ao fim da tarde: queria falar comigo! Entrou com o seu charme,a sua elegância,o seu ar jovial. Abrindo a pasta que sempre trazia consigo retirou dois bilhetes e estendendo a mão para me oferecer disse: são da FIL gostava imenso que me fosse visitar no nosso Stand. Aceitei.|
Nessa noite jantei no restaurante da feira e lá fui visitar o stand onde estava a Susete.Como sempre estava resplandecente de beleza e bastante atarefada a dar explicações aos visitantes que se lhe dirigiam aparentemente interessados nas óptimas caravanas em exposição. Com um “com licença” esgueirou-se entre eles e convidou-me a sentar num maple perto de uma pequena mesa onde alguns panfletos da firma exibiam fotografias das caravanas em lugares de férias paradisíacas!
Durante alguns momentos vi aquela bela mulher a desdobrar-se activamente na promoção dos veículos em exposição;Não havia dúvidas que era uma vendedora de peso e ao convidar-me para estar alí presente dava-me uma prova eloquente do seu empenho e competência como desenvolvia a sua actividade.
Agradeci-lhe o convite terminando a visita e ela com um beijo disse-me que tinha apreciado muito a minha disponibilidade e acompanhou-me até fora do rectângulo do stand. Juntei-me à multidão e parando por um breve momento olhei para trás: Ela acenou-me com a mão enviando-me graciosamente um beijo. Segui então o meu caminho com um pressentimento estranho.
Nunca mais falei com ela a partir daquele momento. No entanto ainda a vi mais uma vez. Foi no restaurante Mónaco: Atendendo a um pedido do chefe de mesa daquele conhecido estabelecimento da marginal. Necessitava ele alguns esclarecimentos sobre melhores aplicações das suas poupanças,junto do banco. Esperei com uma bebida no copo o momento que ele deixasse a sala para conversarmos. Eram 23 horas. A sala de jantar estava cheia e alguns casais já dançavam na pista. O conjunto musical privativo acompanhava um excelente vocalista numa linda canção “Feeling...” Eis que de repente dou com um casal românticamente dançando bem enlaçados e com os rostos bem juntos: era a Susete e o seu marido! Constituíam um belo par. Deslizavam suavemente com a elegância dos seus corpos jovens! Era uma demonstração de sensualidade e de cumplicidade no desejo que transparecia nos seus rostos colados e inebriados por aquela canção que,certamente,lhe estava a ser dedicada. Não deu pela minha presença no bar.
Quando se dirigiram e se sentaram na mesa ,uma garrafa de champanhe no balde com gelo,esperava-os e o empregado solícito serviu-os . No borbulhar de espuma com os copos levantados fizeram um brinde. Os seus olhos estavam fixos um no outro com demonstração de grande cumplicidade!
Naquela noite,durante o caminho para casa,abri a janela do carro e deixei que o ar da noite me fustigasse o meu rosto! Procurava resposta a algumas questões que bailavam na minha cabeça.

Dr.Ricardo entrou naquela manhã à hora do costume. Entrou no meu gabinete e pediu-me para pôr o dispositivo de “ocupado”a funcionar. Reparei que estava transtornado e deixando cair o seu corpo pesadamente no maple disse-me: “Está tudo acabado. A Susete deixou-me e eu não posso viver sem ela,francamente não sei o que fazer!” Depois,aquele homem que se apresentava sempre altaneiro e seguro de si,caiu num pranto ! Confessou-me ter sido vitima de roubo,de traição e,sobretudo, muita ingratidão!
Depois de se recompor disse-me “desculpe-me: O que realmente me trás aqui é um motivo de negócios e não do coração. É para o informar que futuramente assumo todos os negócios da firma e honrarei os meus compromissos perante o banco. Sem saber o que dizer fiquei desajeitadamente silencioso ! Vi-o sair rapidamente colocando os óculos escuros quando se dirigia para o carro. Era um destroço humano!

Passaram alguns meses. Nunca mais os vi. Certo dia recebi uma comunicação da judiciária para me apresentar na sua sede a fim de prestar alguns esclarecimentos num processo de assalto que o banco foi vitima em data bastante anterior.
Já conhecia os corredores daquele edifício o que me facilitou encontrar rapidamente o departamento que me interessava e o inspector que me havia convocado. Estendeu-me a mão e convidou-me a sentar-me na sua frente. Na secretaria havia resmas e resmas de papel encadernadas. Puxou de um processo e mostrou-me algumas fotografias de indivíduos nele existentes,perguntando-me se conhecia alguma. Acabada esta minha colaboração eis que puxa de mais outro processo abrindo-o na minha frente. Eis então que deparo com as fotografias da Susete e do marido. O Inspector fita-me com um ar curioso e dispara: E estas conhece? Disse-lhe que sim sem conter o meu espanto e consternação! Pois estes seus clientes tem vários processos por burla,roubo e falsificação de documentos! O último ocorreu numa firma de um tal Dr Ricardo dos Santos,também seu cliente . Digo-lhe que a Susete é uma refinada vigarista e há muito anda a ser seguida por nós. O marido é o seu cúmplice. É uma mulher de grande inteligência e bastante fria na sua actuação que é ajudada pela sua extraordinária beleza. A pergunta que lhe faço é esta: sabe onde esta gente pára? É que desapareceram e não deixaram rasto! Claro que não sabia!
Saí do edificío da PJ completamente atordoado. Eram cinco horas da tarde. Decidi telefonar à minha mulher. Disse-lhe que fosse ter comigo às Amoreiras.
Quando cheguei perto dela e recebido com o seu delicioso sorriso abracei-a e beijei-a com carinho. Ela perguntou-me com um ar interrogativo: A que devo este teu abraço tão ternurento? Eu respondi-lhe: Por nada,por nada! Então beijando-me novamente disse-me ao ouvido: Seja o que for eu aproveito a boleia! E fomos jantar juntos num bom restaurante.


Hélder Gonçalves
Janeiro 2009

Fotografia: Samantha David Coiffeur
Arquivo Pessoal

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